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Entrevista – Narguilé causa os mesmos males que o cigarro

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Cristina Perez - 08.2015“Parece inofensivo, mas fumar narguilé é como fumar 100 cigarros”. O alerta é o slogan do Ministério da Saúde na campanha deste ano em celebração ao Dia Nacional de Combate ao Fumo, 29 de agosto. O dispositivo ganhou popularidade no Brasil, principalmente entre os jovens, por ser oferecido como forma de socialização e supostamente pouco prejudicial à saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no entanto, uma sessão de narguilé, de 20 a 80 minutos, equivale à exposição de todos os componentes tóxicos presentes na fumaça de uma centena de cigarros.

O fumo do narguilé contém nicotina em sua composição, o que causa dependência. Em caso de uso compartilhado das mangueiras do aparelho, aumentam-se os riscos de transmissão de doenças como herpes, hepatite C e tuberculose. A consultora técnica da Fundação do Câncer, Cristina Perez, esclarece sobre o assunto na entrevista a seguir.

O narguilé é uma droga? É capaz de causar dependência?
Na verdade, a droga que causa dependência tanto no cigarro quanto no narguilé é a nicotina encontrada no tabaco utilizado nos dois. Todos os produtos derivados de tabaco, que produzam ou não fumaça, contêm nicotina e causam dependência.

O Ministério da Saúde volta a abordar o uso do narguilé neste Dia Nacional de Combate ao Fumo, mesmo tema de 2013. Qual a importância de retomar a discussão?
O uso do narguilé tem se popularizado no Brasil e é oferecido como menos nocivo e como forma de socialização entre adultos e jovens. A indústria do tabaco tem buscado diversificar seu mercado, promovendo produtos além dos conhecidos cigarros, e o narguilé tem ocupado um espaço importante. O narguilé pode aumentar o risco de iniciação ao tabagismo e da consequente dependência da nicotina.

Que males o narguilé pode causar à saúde do fumante?
Os mesmos que o cigarro. Segundo a OMS, uma sessão de narguilé, que dura em média de 20 a 80 minutos, corresponde à exposição de todos os componentes tóxicos presentes na fumaça de aproximadamente 100 cigarros. O uso de narguilé foi significativamente associado com o desenvolvimento do câncer de pulmão, doenças respiratórias e cardiovasculares.

O uso compartilhado também está relacionado à transmissão de doenças infectocontagiosas?
Sim, esse é mais um problema associado ao uso do narguilé. O compartilhamento bucal, através das mangueiras, pode transmitir doenças como herpes, hepatite C e tuberculose.

O que dizem as estatísticas sobre a popularidade do narguilé?
A Pesquisa Especial de Tabagismo (PETab), promovida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Instituto Nacional de Câncer (Inca) em 2008, indicou que havia 300 mil consumidores do produto no Brasil naquela época. A pesquisa Perfil do Tabagismo entre Estudantes Universitários no Brasil (PETuni), do Ministério da Saúde, também destacou a alta proporção de usuários de narguilé entre estudantes universitários de alguns cursos selecionados da área da saúde. Em Brasília (DF) e São Paulo (SP), em 2011, dos estudantes que declararam consumir com frequência algum outro tipo de produto derivado do tabaco, de 60% a 80%, respectivamente, fizeram uso do narguilé.

Como o Brasil tem atuado no controle do narguilé?
O país tem atuado através de campanhas de conscientização, como a que a Fundação do Câncer está promovendo este ano (Hangout aborda Tabagismo e Narguilé), buscando informar e esclarecer à população sobre os malefícios do narguilé, assim como a fiscalização de seu uso em locais proibidos, que são os mesmos onde é proibido o consumo dos cigarros.

Como a legislação precisa avançar para reduzir o número de fumantes e a iniciação do tabagismo entre os jovens?
O Brasil tem diminuído a prevalência de fumantes, atualmente 14,7%, e tem alcançado resultados muito positivos nos últimos anos. No entanto, ainda há avanços necessários, como a proibição da exposição dos produtos derivados de tabaco nos pontos de venda, a adoção das embalagens genéricas como foi feito na Austrália, a proibição definitiva de aditivos como baunilha, chocolate e mentol nos cigarros e o contínuo aumento dos preços e impostos dos cigarros, diminuindo, assim, a iniciação e promovendo a cessação de fumar.