Entrevista: jornalista conta como revelou que tinha câncer ao filho de 3 anos | Fundação do Câncer
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Entrevista: jornalista conta como revelou que tinha câncer ao filho de 3 anos

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Ivna MalulyA jornalista Ivna Maluly, 40 anos, foi surpreendida com uma pergunta de seu filho Elias: “Cadê seu peito, mamãe?”. Como explicar a uma criança de 3 anos sobre uma doença grave? As dúvidas do menino e sua preocupação com a mãe, diagnosticada com câncer de mama em 2008, foram contadas em livro pela carioca, que vive com ele e o marido em Bruxelas, na Bélgica.

Curada desde o ano passado, Ivna ainda se emociona ao lembrar os momentos de companheirismo com Elias, hoje com 10 anos, enquanto enfrentava a doença. “Eu pretendo transmitir que o amor entre pais e filhos, amigos e até de pessoas desconhecidas pode mover montanhas. Com apoio de todos, podemos superar as dificuldades. Mesmo que a situação seja a pior possível”, diz ela.

“Cadê seu peito, mamãe?” está disponível nas livrarias brasileiras e no site da editora Escrita Fina desde 2010. No fim de abril, 500 exemplares em francês e inglês começaram a ser distribuídos em Bruxelas para entidades que atuam na luta contra o câncer. Conheça a história de Ivna na entrevista a seguir.

O que a motivou a escrever o livro?

Ivna Maluly: Acho que foi a necessidade de passar para as pessoas que o diálogo pode amenizar os problemas, sejam eles quais forem. O fato de eu explicar ao meu filho o que estava acontecendo foi muito importante no processo de aceitação da doença para mim e para a minha família. Eu já tinha tido o exemplo da minha mãe, que teve câncer de mama dois anos antes de mim. Como moro longe, fiquei louca, triste, irritada e quase não falava mais com ninguém. O meu filho, com dois anos à época, começou a empolar, ficou vermelho e não tinha remédio nem pomada que o curasse. Foi puro fundo emocional, como disse a dermatologista. A partir do momento em que eu expliquei para ele que a mamãe estava triste por causa da vovó mas que tudo ia ficar bem, ele melhorou. Quando eu fiquei doente, não quis repetir a experiência. Fui logo explicando. Quando eu ia aos médicos, não podia pegá-lo no colo porque o braço estava doendo. E ele foi se acostumando. As crianças têm um poder fenomenal em se adaptar às situações, sobretudo quando é explicado.

Que mensagem pretende transmitir ao público?

Eu pretendo realmente transmitir que o amor entre pais e filhos, amigos e até de pessoas desconhecidas pode mover montanhas. Com apoio de todos e especialmente o apoio que damos a nós mesmos, podemos superar dificuldades. Mesmo que a situação seja a pior possível.

Como fez para tratar de um tema delicado ao se comunicar com as crianças no livro?

Usei da minha própria experiência. O livro é uma história fidedigna. Na verdade, escrevi toda a minha trajetória desde a descoberta da doença até antes da reconstrução mamária. São vários minicontos que poderiam dar um livro maior. Mas pincei esta história pois achava que a ausência de um seio para uma mãe e uma criança que foi amamentada é muito importante. É o símbolo mais lindo para os dois. É a ligação que une esses dois seres. Mais do que perder o cabelo, mais do que ficar gorda, mais do que ficar cansada. O seio é o seio. Quando fui ter o Elias, li muito, e nos livros estava escrito que a criança entende as coisas com palavras de crianças. Não adianta querer explicar tudo ou esconder tudo.

Escrever foi uma forma de se desvencilhar de pensamentos negativos durante o tratamento?

Sim. Fui orientada na época a escrever pelo meu psicoterapeuta, um cara extraordinário. Claro que os pensamentos negativos vêm sempre! A palavra câncer ainda é pesada. Até que você entre numa zona de não perigo, a angústia é presente. Então, ele falou: “Ivna, vamos fazer deveres de casa. Está bem?”. Eu topei, e assim foi nascendo o livrinho e outros mais que já foram publicados.

Em que momentos você parava para escrever?

Quando me sentia bem. Às vezes, com a quimioterapia, eu me desconcentrava rapidamente e não conseguia ficar muito tempo na frente de uma tela de computador. O livro, depois de pronto, foi lido por alguns especialistas em câncer, que foram falando da importância de colocar a palavra câncer no texto e em quais momentos. Foram me dando algumas dicas e me apoiando para publicá-lo. Eu não sabia se a minha história poderia agradar, se ela realmente passaria uma mensagem positiva ou negativa. Finalmente, deu certo!

Como foi o momento em que explicou ao seu filho que não tinha um dos seios?

Quando eu saí da sala de cirurgia, nunca pensei que sairia sem o seio. Vi o patologista ir embora com uma caixa onde o meu seio estava. O cirurgião veio e me explicou que infelizmente tiveram que fazer uma mastectomia radical, mas que os linfonodos não tinham sido infectados. Três dias depois de sair do hospital, falei com o meu marido e estávamos pensando numa forma de explicar o que havia acontecido. Foi quando a minha irmã estava fazendo o meu curativo no banheiro e ele entrou e viu tudo. Logo, colocou a mãozinha na minha pele e perguntou: “Cadê o seu peito, mamãe? Está doendo?”. Foi aí que tive de contar que, quando eu estava no hospital, o médico descobriu que a mamãe estava com uma doença chamada câncer e que ela era malvada. Por isso, tirou o seio. Mas que ele ia voltar um dia… A preocupação dele durante muito tempo era saber se o seio tinha voltado. Por isso, várias vezes vinha me ver e verificar se estava lá de volta.

Quando o livro foi lançado no Brasil, Elias tinha apenas 5 anos. Ele já leu a história? Como reagiu?

Elias já leu e já escutou várias vezes em leituras com crianças. Ele sabe tudo e, há até bem pouco tempo, queria saber se o seio tinha voltado. Se realmente o que eu tinha falado, que o peito voltaria, era verdade. Quando reconstruí a mama, ele se acalmou. E hoje está ótimo. Agora que está com dez anos, me perguntou: “Mãe, então quer dizer que você poderia ter morrido? Você teve câncer…”. Eu falei: “Sim, meu amor. Mas a medicina está avançada e a mamãe fez tudo o que o médico mandou. E hoje estou bem”. Ele disse “ufa”. A cada vez que eu lia a história, ele sorria. Gostava de saber que era o personagem principal. E que, ao me ver bem, aquilo já eram águas passadas. Hoje, ele até fica sem graça quando falamos do peito. Quer se esconder. Aí vejo que ele começa a crescer…

O que foi mais importante na sua relação com o Elias para a superação da doença?

Foi dialogar com ele. Uma pessoa tem o direito de estar triste, de estar feliz, de sentir dor. Esconder isso da criança pode gerar insegurança, raiva e culpa nela. E isso pode se manifestar de várias maneiras. Não acho digno nem sincero esconder coisas. O mesmo vale para uma separação de pais, para um problema de dinheiro etc. A criança que não recebe uma palavra vira uma “esponja” e vai acumulando problemas, os pensamentos que poderiam ser simplificados viram monstros gigantes.

Qual foi o momento mais marcante entre vocês durante o tratamento?

Elias é e sempre foi uma criança feliz, amada. Então, ele me abraçava muito, ficava grudado mesmo. Recebi muito carinho dele. Quando eu perdi o cabelo, ele brincava de tirar a minha peruca e colocar nele e gostava de tirar fotos comigo careca. Tudo para ele transformou em brincadeira. Tudo me marcou, mas o um dos momentos mais bonitos foi quando um dia na escola cheguei para buscá-lo. A professora tinha explicado para os coleguinhas que a mamãe do Elias estava doente. Quando ele foi embora, a professora disse: “E o que podemos falar para o Elias?”. Todas as crianças deram um ‘abraçaço’ nele. Ele amou! Foi muito emocionante. Outra coisa que guardo na memória foi quando a priminha dele disse: “Elias, por que a sua mãe está sem cabelo?”. Ele respondeu com muita naturalidade: “O médico deu remédios fortes para ela que fazem cair o cabelo”. E depois continuaram a brincar. Acho que essa compreensão perfeita me assegurou muito. Eu tive o sentimento de que tudo estava controlado.

Quais têm sido as reações das pessoas que já leram o livro?

As pessoas ficam encantadas, amam o livro. Eu fico muito emocionada quando me dizem isso. Sobretudo mulheres jovens com crianças pequenas. Vejo que a situação se repete e os diálogos são parecidos, e os problemas também. Muita gente me agradece, pois é um material educativo que ajuda a falar sobre algo grave. Muita gente chora também com o livro e diz que não é só para crianças, mas também para os pais.

Como foi seu tratamento?

Desde o ano passado sou considerada alguém que está fora de risco. Mas tenho de fazer acompanhamentos de perto a cada seis meses. Talvez agora passe para um ano de distância de cada exame. O meu tratamento foi tranquilo no início, mas depois ficou pesado. Como a própria oncologista disse, “nós te bombardeamos de medicamentos”. Eu sou uma mulher jovem, com diagnóstico grave pois meu câncer atinge 20% de mulheres no mundo. Por isso a retirada total do seio direito… Nas três primeiras quimios tudo estava bem. Fazia muitas festas aqui em casa, recebia pessoas para passar o tempo. Mas depois foi ficando complicado. Com o cansaço, as idas e vindas do hospital, as dores musculares, aftas enormes e o aumento de 20 quilos, não estava numa fase muito boa com o meu corpo. Não conseguia aceitar que eu não podia fazer as minhas coisas, ou quase tudo sozinha e rapidamente como sempre fiz. Eu levei uma vida normal, mas tudo levava tempo. Para pegar um copo d´água, para pegar Elias na escola, colocar roupa na máquina. Tudo virou coisa de outro mundo. Como uma velhinha de 100 anos. Eu não conseguia aceitar que eu, com 30 e poucos anos, não tinha condição de me virar. Mas tudo isso passou e eu logo voltei a trabalhar. Foram dois anos de tratamento com quimio e injeções no hospital. Depois veio a reconstrução. No total, cinco anos.

O que mudou na sua rotina durante o tratamento e o que faz hoje na cidade onde vive?

Eu sempre fui jornalista free lancer e dou aulas de português para europeus. A minha rotina teve de diminuir apesar de eu ter conseguido escrever esse livro e outros que já foram publicados. Parei de dar aulas por conta da concentração e da vontade de dormir e ficar estirada… Mas, assim que pude, voltei a dar aulas com cabelo bem curtinho. Continuo com os meus alunos, fazendo matérias para jornais locais que circulam em língua portuguesa e escrevendo livros. Vou lançar dois este ano para crianças também. Um sobre o Segundo Reinado e outro sobre a história de Fabio e Rafael, jogadores do Cardif e do Manchester.