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Carrapatos contra o câncer

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Responsável pela transmissão de inúmeras doenças entre humanos e animais, o carrapato pode ser um importante aliado no combate ao câncer. Pesquisadores do Programa de Oncobiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), financiado pela Fundação do Câncer, descobriram que uma proteína encontrada na saliva do parasita é capaz de reduzir em 80% o crescimento de tumores da pele e do cérebro em camundongos.

Coordenados pelo professor Robson de Queiroz Monteiro, os cientistas agora tentam provar que a substância pode ajudar na detecção mais precisa, em roedores, do glioblastoma, mais comum e agressivo tumor cerebral. Entretanto, ainda há uma longa distância a ser percorrida para viabilizar testes em humanos, já que serão necessários investimentos.

O pesquisador deu detalhes sobre o estudo em entrevista ao site da Fundação.

Quais são os objetivos desta pesquisa e quais foram os resultados já obtidos?
Trabalhamos com um inibidor da coagulação sanguínea denominado Ixolaris. Esse inibidor foi caracterizado na saliva do carrapato Ixodes scapularis e mostrou potente efeito antitumoral em camundongos. Nosso grupo estudou dois tipos de tumores: melanoma (câncer que se desenvolve nos melanócitos, células responsáveis pela pigmentação da pele) e glioblastoma (tumor altamente agressivo do sistema nervoso central).

Que tipo de efeito antitumoral foi detectado no anticoagulante da saliva do carrapato?
Nos dois modelos — melanoma e glioblastoma — utilizamos linhagens altamente agressivas que foram injetadas em camundongos. O inibidor de carrapato Ixolaris reduziu em 80% o crescimento dos tumores, mas não foi testado quanto à capacidade de diminuir o tamanho de tumores já estabelecidos. O principal efeito que documentamos foi a redução da formação de novos vasos sanguíneos no tumor. O Ixolaris tem essa propriedade porque a maioria dos pacientes com câncer sofre um desequilíbrio na coagulação sanguínea, em parte devido a uma proteína denominada Fator Tecidual, presente nos tumores mais agressivos. Esse inibidor de coagulação se liga ao Fator Tecidual da célula tumoral e reduz a progressão dos tumores.

Como foram feitos os testes?
Realizamos os ensaios com cinco a dez camundongos. Os que tinham melanoma receberam a proteína por 15 dias. Já os que apresentavam glioblastomas foram testados por 30 dias. Os roedores tiveram a substância injetada por via subcutânea nos dois casos.

Pretendem chegar à fórmula de algum medicamento para combater o câncer em humanos?
Essa molécula nunca foi testada em humanos. Precisaríamos estabelecer uma parceria com alguma empresa que tenha condições de produzir a proteína em quantidade e qualidade necessárias para testes em pessoas.

O que vocês tentam descobrir agora?
Atualmente, em colaboração com o grupo do Dr. Sergio Souza, do Departamento de Radiologia da Faculdade de Medicina da UFRJ, temos avaliado a capacidade dessa molécula de reconhecer tumores contendo a proteína pró-coagulante fator tecidual. Percebemos que o Ixolaris, marcado com elemento radioativo, reconhece glioblastomas implantados no cérebro de camundongos e permite a obtenção de imagens destes tumores por uma técnica de tomografia computadorizada chamada SPECT.

Desde quando esta pesquisa é realizada?
O Ixolaris foi descoberto em 2002 pelo pesquisador Ivo Francischetti nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (National Institutes of Health). De 2004 a 2007, estudamos o mecanismo de ação anticoagulante do Ixolaris e demonstramos o seu efeito antitrombótico, ou seja, contra a formação de coágulos sanguíneos. Em 2009, demonstramos o efeito antitumoral da substância no modelo de glioblastoma e, em 2012, nos melanomas. Os estudos a partir de 2004 foram basicamente realizados no Brasil.

Como vocês pretendem avançar na questão da trombose?
A trombose associada ao câncer é uma das principais consequências sistêmicas do câncer e é a segunda causa de morte nesses pacientes. Utilizando um modelo de melanoma em camundongos, demonstramos que fragmentos de células tumorais podem ser liberados na circulação e aceleram a trombose nestes animais. Este trabalho foi publicado no periódico “Thrombosis and Haemostasis” em 2011. Nosso grupo agora avalia o papel de neutrófilos, uma classe de células que fazem parte do sistema imunológico, no estabelecimento da trombose relacionada ao câncer. Compreender as causas desse fenômeno pode facilitar o tratamento da associação dessas duas patologias e reduzir seu impacto nos pacientes oncológicos.

Robson de Queiroz Monteiro é graduado em Farmácia pela UFRJ (1993) e cursou Mestrado (1997) e Doutorado (2001) em Química Biológica no antigo Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ, atual Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM). Atualmente é professor associado do  IBqM e chefia o Laboratório de Trombose e Câncer.