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Brasil enfrenta desafio de reduzir número de fumantes

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Quase 19 milhões de brasileiros continuam a consumir produtos de tabaco regularmente

Cigarro aceso

RIO – A proporção de fumantes na população brasileira caiu mais pela metade tanto entre homens quanto entre mulheres de 1990 a 2015, passando de 29% para 12,6% entre eles e 18,6% para 8,2% entre elas. Mas apesar desta “história de sucesso”, como destacaram os autores da pesquisa publicada no mês passado na revista médica “Tha Lancet”, quase 19 milhões de brasileiros continuam a consumir produtos de tabaco regularmente, o que coloca o país na oitava posição no ranking global em número de usuários. E não é por falta de informação sobre os malefícios do tabagismo, destaca Tatiane Montella, oncologista clínica do grupo D’Or.

“O cigarro causa 85% das doenças pulmonares crônicas e 30% de todos os cânceres, além de ser um fator importante no desenvolvimento de doenças cardiovasculares”, lembra. “De fato, as políticas nacionais de saúde focadas na prevenção por meio da conscientização dos danos do fumo à saúde mostraram bons resultados na redução da percentagem da população que é tabagista no Brasil, com resultados satisfatórios que fizeram o cenário no país mudar, mas isso não pode parar e ainda dá para melhorar”.

E foi justamente pensando nisso que a Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu como tema do Dia Mundial sem Tabaco deste ano, celebrado nesta quarta-feira, “Tabaco – uma ameaça ao desenvolvimento”. A ideia é ressaltar que os prejuízos do tabagismo vão muito além da saúde individual dos consumidores, atingindo também a economia e o meio ambiente.

“As pessoas já têm uma boa noção dos malefícios do fumo no nível pessoal, com pesquisa indicando que 90% dos brasileiros reconhecem a associação do fumo com doenças muito graves”, aponta Cristina Perez, psicóloga da área de Promoção da Saúde da Fundação do Câncer, que alinhou sua campanha de prevenção ao tabagismo deste ano ao tema escolhido pela OMS. “É preciso então chamar a atenção para outros impactos que não diretamente relacionados à saúde pessoal do tabagismo”.

Assim, a campanha da Fundação do Câncer traz dados sobre os prejuízos coletivos do fumo. Entre eles, o fato de que os gastos com apenas 15 das cerca de 50 doenças já relacionadas diretamente ao uso de tabaco chegam a R$ 25 bilhões anuais no país, ou que a indústria do fumo é responsável por cerca de 4% de todo desmatamento global anual.

“Isto sem falar em outras consequências econômicas, ambientais e sociais”, conta. “O tabagismo também está por trás de muitos casos de aposentaria precoce ou absenteísmo do trabalho. Já no campo, agricultores sofrem com muitas doenças só por plantar e manusear o tabaco. Estas plantações também têm um alto uso de pesticidas e agrotóxicos que acabam chegando nos rios e poluem a água que estas próprias famílias vão usar”.

Segundo Cristina, o sistema de produção adotado pela indústria do tabaco no Brasil também acaba por “prender” estes agricultores num ciclo vicioso de dívidas que impede que busquem subsistência em outras culturas.

Outra estratégia que pode ajudar na redução do número absoluto de fumantes no país é focar as campanhas de conscientização dos danos e prevenção do uso do cigarro na parcela da população que mais tem sucumbido ao hábito: adolescentes, em especial as mulheres, de baixa renda.

“Não podemos pensar que a questão está resolvida, ainda temos um caminho muito grande pela frente”, avalia Renato Calil, pneumologista do hospital Caxias D’Or. “Como muitos adolescentes estão começando a fumar, talvez as estratégias de prevenção devam partir diretamente das escolas”.

Neste ponto, os especialistas ouvidos pelo GLOBO também criticam a interrupção da política de encarecimento dos cigarros no país.

“A política de preços para os cigarros está estacionada há um ano, e sabemos que o encarecimento está relacionado fortemente a uma redução do consumo”, diz Cristina Perez, da Fundação do Câncer.

“Hoje já temos um preço mínimo, mas ainda assim o cigarro é relativamente muito barato no Brasil”, reforça Calil.

Além disso, o Brasil também pode diminuir ainda mais sua população fumante melhorando o acesso a opções de tratamentos antitabagismo para quem quer parar.

“Hoje 70% das pessoas que procuram o SUS (Sistema Único de Saúde) querendo parar de fumar são atendidas, então ainda há bastante espaço para melhorar aí”, destaca Kalil. “Precisamos baratear mais as terapêuticas antitabagistas de forma a ampliar mais este acesso e a adesão aos tratamentos”.

Em alguns casos, no entanto, a dependência de nicotina é tamanha, ou as dificuldades psicológicas e psiquiátricas dos usuários são tais, que é preciso partir para estratégias mais radicais. E foi de olho neste público que a psiquiatra Analice Gigliotti, chefe do setor de Dependência Química da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e diretora da Espaço Clif, se inspirou em metodologia da Clínica Mayo, nos EUA, para criar recentemente um tratamento que envolve a “imersão” do paciente em uma espécie de spa no qual durante uma semana de “intensivão” unindo medicamentos (diferenciados, de acordo com cada pessoa e as suas características), terapia específica e acompanhamento de nutricionista os fumantes larguem o cigarro e não engordem – um dos grandes entraves para o sucesso verificados nas suas consultas.

“Pessoas muito impulsivas, extremamente agitadas, depressivas e ansiosas, que sofram muito com o estresse no dia a dia, que tendem a beber ou tem um grau grave de dependência de nicotina são as que têm as maiores dificuldades para parar de fumar”, enumera. “Foi para estas que passamos a oferecer este período de “internação” para se livrarem do tabaco, que dobra as chances de abstinência na comparação com o a terapia com acompanhamento psicológico e farmacológico apenas ambulatorial”.

Analice destaca que quem quiser parar de fumar deve primeiro buscar ajuda especializada. Segundo a psiquiatra, pesquisas indicam que só de 3% das pessoas que tentam parar sozinhas continuam sem fumar seis meses depois de parar. Já as que unem a esta decisão algum tipo de apoio farmacológico, como antidepressivos, esta taxa de abstinência chega a 6%. Com acompanhamento profissional e farmacológico, por sua vez, o sucesso atinge até 30%. Por fim, com o método de “imersão”, a Clínica Mayo conseguiu que 57% dos atendidos continuasse sem fumar seis meses depois de parar.

“Estamos confiando nesta empreitada, que embarcamos muito por ideologia”, conta. “Acreditamos neste tratamento e queremos ajudar os pacientes com mais dificuldades que pedem um tratamento mais eficaz. Há algum tempo não tínhamos o que mais oferecer a eles, mas agora temos uma opção com chance de ser mais efetiva”.

 

Fonte: Gazeta Online – 10/06/2017