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A área da saúde, que está em evidência no enfrentamento de uma pandemia sem precedentes, perdeu um de seus maiores expoentes e apaixonados trabalhadores: o médico Dr. Marcos Fernando de Oliveira Moraes, que nos deixou no último dia 4. Seu falecimento, por causas naturais, aos 84 anos, no Rio de Janeiro, abre uma lacuna que não pode ser preenchida. Mas, deixa inspirações e legados que merecem e devem ser preservados.

Alagoano de nascimento, com títulos de cidadão fluminense e carioca, Marcos Moraes era um dos maiores cirurgiões e oncologistas que o Brasil já teve. Conhecido por sua luta obstinada pelo controle do câncer no país, escreveu novos capítulos sobre tratamento e cirurgias oncológicas e mudou o rumo da história com sua missão de médico e se mostrou um gestor extremamente visionário e com inigualável capacidade de realização à frente do Instituto Nacional de Câncer (Inca), que conduziu por nove anos, a partir de 1990.

Foi justamente para possibilitar investimentos no Inca e levar adiante seu plano de expansão, cujo objetivo final sempre foi o de salvar vidas, que ele criou, em 1991, com outros três médicos do instituto, a Fundação Ary Frauzino para Pesquisa e Controle do Câncer, hoje conhecida como Fundação do Câncer. Como o próprio Dr. Marcos contava, “no início, a Fundação era duas páginas de papel” em sua pasta e “muita vontade de fazer tudo dar certo”. Hoje, quase trinta anos depois, basta olhar para sua trajetória para concluir que, sim, deu certo!

A Fundação do Câncer era a “menina dos olhos” de Marcos Moraes e, hoje, prestes a completar 30 anos, segue lutando para manter vivo esse “sonho grande” de seu criador. Em 2019, ciente da enorme responsabilidade, assumi a presidência do Conselho de Curadores da instituição, cargo que ele brilhantemente desempenhou por muitos anos. Comecei a integrar esse órgão de gestão, como conselheiro, a convite dele, quando ainda não tínhamos nenhuma proximidade.

Com o convívio no conselho, nos conhecemos melhor. Marcos era bastante calado. Entre os vários depoimentos que ouvi a seu respeito, alguém disse que ele era um “fenômeno”, porque liderava pelo silêncio. Realmente, é muito difícil imaginar que alguém possa liderar pelo silêncio e não pelas palavras e o que elas transmitem. Mas, o Marcos transmitia tudo o que queria pelo que saía de sua alma, pelo que exalava. E ele transmitia uma seriedade e uma consistência que atraiam a todos. Era um homem realizador; tudo o que ele fez, foi muito bem feito, sempre com muita eficiência.

Aceitei o convite de me tornar presidente do Conselho de Curadores da Fundação do Câncer, primeiro, em homenagem ao Marcos Moraes, que era uma pessoa que eu admirava e respeitava profundamente. Apesar da vida atribulada, achei que precisava dedicar um tempo para honrar aquele posto até que ele pudesse retornar. Hoje, busco levar adiante o importantíssimo trabalho da Fundação do Câncer com a ajuda do Dr. Luiz Maltoni Júnior, Diretor Executivo e era braço direito do Dr. Marcos na instituição. Não tenho a pretensão de repetir a competência o Dr. Marcos Moraes, que era singular e insubstituível. Mas, persigo seus exemplos de maneira que ele, lá de cima, fique satisfeito com nosso esforço. Isso é que eu quero transmitir: vamos sempre nos esforçar, inspirados por seu jeito de liderar, mesmo sem palavras, e motivar pelo exemplo e obstinação em salvar vidas, cada um com aquilo que tem para oferecer.

Em seu íntimo, Marcos acreditava que “um sonho tem que ser grande para ser efetivo”. E, para realizar tantos sonhos, ele não dormiu, nem esperou. Marcos Moraes sempre trabalhou – e muito. Uma de suas principais bandeiras foi a luta contra o tabagismo, motivo pelo qual recebeu medalha e diploma da Organiza­ção Mundial de Saúde (OMS), em 1994.

De sua mente privilegiada nasceram projetos que redefiniram a pesquisa e a assistência oncológica, como a reestruturação do Inca como entidade responsável pelo Programa Nacional de Controle do Câncer, que ele também concebeu a convite do governo federal. Idealizou e lutou pela criação do Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon), uma espécie de “Lei Rouanet do câncer”, que permite a captação de recursos de empresas para investimento em programas e projetos na área. Criou e coordenou o Programa de Oncobiologia, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da qual recebeu o título de Doutor Honoris Causa, uma das muitas e merecidas honrarias e titulações que recebeu ao longo da carreira.

Dr. Marcos Moraes foi e continuará sendo uma inspiração e modelo de médico, professor e gestor para muitas gerações de profissionais da saúde e de outras áreas do saber. Seu legado é motivo de orgulho para todos os brasileiros.

Dr. Paulo Niemeyer Filho, presidente do Conselho de Curadores da Fundação do Câncer